Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que detestou determinado filme porque ele não foi fiel ao livro no qual se baseou? Ora, quantas vezes nós já não dissemos isso? E eu posso prever que fãs de Harry Potter ou Percy Jackson não vão gostar muito do que eu tenho para dizer, mas julgar um filme pelo livro em que é baseado é quase como julgar a textura de uma escultura através de uma fotografia tirada dela.
Bráulio Mantovani – genial roteirista brasileiro, autor de “Tropa de Elite”, “Cidade de Deus”, entre outros – fez uma excelente definição do tempo de ação de um romance em comparação ao tempo de ação de um filme em uma entrevista não muito recente, mas também não muito antiga. Segundo ele, em uma obra literária, um segundo de ação prática pode se desenrolar por cem páginas, visto que o autor lança mão de descrições minuciosas acerca dos sentimentos do personagem, do estado físico em que se encontra etc. Em um filme, um segundo de ação prática significa um segundo de ação prática. Ponto final. Outra diferença entre a linguagem literária e a cinematográfica são os recursos disponíveis para que emoções sejam despertadas nos consumidores de uma obra: o autor de um livro conta somente com as palavras, ao passo em que um cineasta pode se utilizar de trilha sonora, imagens tocantes e atuações expressivas. Além disso, um livro pode ser lido em vários dias, mas é difícil encontrar pessoas que estão dispostas a assistir a um filme que extrapole duas horas e meia.
Por tudo isso (e muito mais), é inegável que Literatura e Cinema são duas expressões de arte absurdamente diferentes entre si, mas que realizam um grande intercâmbio de ideias devido a um fato bastante óbvio: são duas expressões que se alimentam basicamente da narrativa clássica. As músicas também narram histórias, mas conseguimos nos emocionar com músicas das quais sequer entendemos as letras, porque a força da melodia é mais acentuada. Por outro lado, o Teatro se aproxima do propósito da Literatura e do Cinema por também se aproximar da intenção narrativa – aliás, eu sempre digo que se Shakespeare tivesse vivido hoje, teria escrito para o Cinema também.
Por serem próximas graças à intenção narrativa, essas duas expressões artísticas levam os leitores/espectadores a pensarem que, se são tão próximas nesse sentido, deveriam contar as histórias da mesma forma – o que deduz, portanto, um esquecimento claro das diferenças de linguagem que separam Literatura e Cinema.
Caro leitor, por mais que se tente, um realizador de Cinema jamais conseguirá uma aproximação 100% fiel da obra literária que está adaptando – aliás, sobre o conceito de fidelidade na tradução, leia a reportagem “A tradução é um casamento poligâmico”, publicada aqui no Literatortura. E aqui chegamos ao cerne do meu artigo: por que o colunista de Tradução acha que pode falar sobre adaptações cinematográficas? Porque os Estudos da Tradução se preocupam com adaptações de todos os tipos e porque adaptações cinematográficas são consideradas traduções intersemióticas. Uma tradução intersemiótica só ocorre quando um material – narrativo ou não – passa de uma linguagem para outra, não importando o seu idioma (leia-se: sua língua): um livro para um filme, uma peça para um livro, uma música para um filme e assim por diante.
Se somos capazes de aceitar que a fidelidade não existe nem mesmo quando se traduz um livro para outro livro (a chamada “tradução propriamente dita”), então é preciso que sejamos capazes de compreender que palavras e imagens podem coexistir em uma tradução, mas que há diferenças intransponíveis entre elas.
Além disso, muito se diz sobre as pessoas que apenas assistem aos filmes sem que leiam os livros – é quase um crime você dizer que Harry Potter é uma boa história sem ter lido os livros. Ora, o filme Harry Potter e o Enigma do Príncipe não é uma obra de J. K. Rowling. É um filme baseado em uma obra de Rowling. O filme, em si, é da autoria do diretor – no caso, David Yates – dividida entre o roteirista, o montador, o diretor de arte, assim por diante. Então é perfeitamente cabível julgar Harry Potter a partir dos filmes, sem ter lido nenhum livro da série, porque o que se julga não são os livros, e sim os filmes.
Aliás, muito se diz sobre adaptações cinematográficas em geral. Se aqui cabe uma opinião pessoal, aí vai: o Cinema se esbalda na fonte da Literatura, o que é bom e ruim: bom porque faz as histórias que amamos ganharem vida, e ruim porque demonstra uma preocupante preguiça criativa por parte das produtoras. Mas, vamos aos fatos: as adaptações existem, têm sua categoria especial no Oscar © e não vão deixar de existir, pelo menos por um bom tempo. Até que elas se extingam – o que julgo altamente improvável – que tal aceitarmos a foto como foto e a escultura como escultura?




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